terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pa-la-vras

Gosto das palavras.
Mantenho o hábito de degustá-las, mastigá-las, e, principalmente, absorvê-las.
Gosto de escrever sentindo o sabor de cada sílaba, de pronunciá-las, talvez, para sentir seu timbre.
Gosto de ler e reler algumas, como se não bastasse devorá-las avidamente.
Prefiro escrever a dizer.
É que as palavras têm um charme, um enlace, jogo de sedução indescritível.
Não, não mando recados.
Apenas lanço-as no ar.
Não sei como vai entendê-las,
Se é que as entende, nesse mistério entre o escrito,o não escrito e o subentendido.
Entre o que registro e o que faço você pensar.
Gosto de proferí-las, cantá-las, e até me deixar agredir por algumas delas.
Deslizo os dedos sobre o teclado ou as risco raramente sobre o papel.
Só sei que estão ali, comigo, todos os dias.
E quando as dirijo a você, partilho pedaços do que me dissolve.
E se não lhes devolvo, é porque só te deixo o meu descaso.
São nelas, as palavras, onde me recolho.
Me salvo.
Me calo, ou me deixo gritar.
Viajo, me espalho, me estranho, me entrego.
Me curo.
É quando ultrapasso qualquer frivolidade,
Para me perder em lugares altamente sedutores,
Febris, voluptuosos, ingênuos, passionais...
Proferida, ao pé do ouvido, é como folha no Outono.
Composta, transcrita, redigida, ultrapassa quatro estações.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Digital

Das horas fatigadas de tanto pensar,
De um pensamento frequente e latente,
De explicações e divagações diversas,
Meu mundo digital.
Da vontade maluca de dizer bilhões de coisas,
De uma febre que toma conta e não passa.
De uma insanidade que me comoveria, se me bastasse.
E tento disfarçar tantos sentimentos que me tomam.
Mas os olhos - malditos olhos!
Denunciam tantos desejos que se movem, ardem, transcendem...
se eu não estivesse do outro lado.
E eu posso ver...
Teu semblante, teu olho, teu sorriso
Minha mão, por um instante, toca teu rosto.
E eu, por alguns segundos, perco o juízo.
Vem da brisa da noite, poderosa cor que pinta o dia
E transforma a paz em uma agonia
Que não dói, não machuca, apenas... inspira.
Mas novamente vem o dia, seus sóis, suas datas,
As páginas do calendário que se vão,
Minhas caras e bocas imperceptíveis do outro lado da tela,
Por um instante você está aqui, afagando meus cabelos,
brisa, noite, poesia, tédio ou remédio...
Do outro lado da tela.



Listening - "Translation" - Bluebell

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Se me atraso

Pouca luz, taça de vinho, calafrio.
Tua mão em minha nuca,
Teu olho perturbando meu juízo.
Minha boca procurando a tua.
Havia muita coisa a ser dita.
Silêncio.
Vontade que ardia.
Sem palavras, um beijo.
Adeus.
Correm-se dias.
Rio de lágrimas dentro de mim.
Vazio.
Sinto teu cheiro.
Aquela canção.
Pele nua e crua. Mãos.
Céu sem nuvem.
Noite.
Chuva.
Um acordo tácito,
Tempo perdido.
Perto e tão longe de tudo.
É que não me deixei sentir.
Passo à frente. Medo. Recuo.
Mais uma vez perdi.
Me atraso.
Deixei-me partir.
Não sei se perdi o trem,
Não sei se me parti em duas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Transgredir

Esse desespero que me rasga o peito não tem nome.
Só sei que ando, e choro.
E as lágrimas me correm o rosto, até que consigo um abraço.
E nesse afago eu tenho medo de contaminar você com a minha tristeza.
Vidro que se partiu, que me pôs a pele em carne viva.
Desespero que atravessa o coração, e me deixa sem voz.
Falta de coragem que me perturba.
Vontade de atravessar a rua.
Ser humano, quem é es tu?
Como posso viver, inconformado?
Quem me ensinou ser assim, transparente
Com esses perfumes que exalo?
Por que preciso sentir a vida,
Dar fortes tragos?
Por que não devo ser aquilo que foi anunciado?
Destino, que quiseste tu trazendo-me à tona?
Agora me rasga o peito essa tal fome de liberdade.
Agora dói nas entranhas a possibilidade de escolha.
Agora dá um nó no grito que precisa sair.
Agora sou eu, só, e preciso,
Transgredir...

domingo, 19 de julho de 2009

Bailarina

Bailarina, menina
Qual seria o destino do pó que sai dos seus pés ao dançar?
No palco do teatro, ela é pura comoção, isso é fato.
No palco da vida, sem sua sapatilha,
Não há música, destino,nem certeira felicidade.

Há tempos procura o que não quer ser procurado.
Há dias em que passa perto da loucura.
Tem acessos de ódio e dias de cansaço.
Há dias em que é estranha e sozinha criatura.

Quem perdeu o bibelô, esta bailarina?
Que é tão mulher no seu afazer, e pobre criança fora dos palcos?
Que falta pra ela, doce criatura do olhar cansado?
É que não consegue mais pensar em futilidades.
Chega em casa depois de tanto dançar seu triste fardo,
e dorme serena, sem pensar no amanhã.

E no amanhecer de um dia de sol azul e sem nuvem,
Esquece os temores da noite.
Põe a música assim, a dançar
Bailarina, menina, com seus movimentos de luz
Esqueceste o quão boa pode ser a vida
Dos dias do sol quente lhe queimando a pele
Mesmo que não cicatrize a ferida,
ali, no palco da vida,
Com suas dores invisíveis,
Deixa voar o pó das sapatilhas.

domingo, 5 de julho de 2009

Vícios ou virtudes

Atraso

Por mais que os ponteiros do relógio me digam que é a hora,

Me atraso.

Cansaço

Não sei se paro, me calo ou explodo tudo.

Descaso

Me olha com ardor e guarda em seu interior uma imaturidade estúpida.

Silêncio

Paro o que tinha pra fazer enquanto escuto uma música muda.

Minutos

Tempo suficiente para que lhe arranque da boca o beijo que desejo.

Letargia

Estado em que me encontro quando busco forças em um suspiro profundo.

Desconcerto

A capacidade absurda que tens de não me deixar em paz.

Descomedimento

O gosto doce da bebida que me deixa leve a cada gole.

Desgosto

Sabor amargo do dia seguinte que clareia atos absurdos de uma noite anterior.

Arrependimento

Vocábulo desconhecido.

Mais

Precisar além, outra vez, em maior grau e quantidade.

Liberdade

Vontade de não estar onde deve estar . Não limitar a própria vontade.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Fragmentos do eu

Um rasgo no peito.
Um mero imperfeito, acaso defeito
Mortal, se sabe.
Parou para sentir sob os pés o barulho das folhas secas desmanchando.
Não havia paz, não havia dor.
Havia o mudo.
Olhava-se no espelho e perguntava-se: quem é este?
Andava a esmo sem pedir e sem dar-se conta.
Nascer, viver, existir.
Fragmentos de vida em flashes.
Lembrou-se de que não havia sido feliz até ali.
Recusou convites,
Evitou pessoas,
Proferiu poucas palavras,
Atravessou a rua.
Não foi amante carinhoso.
Não fumou maconha.
Não gritou quando teve vontade.
Não disse tudo o que tinha pra dizer para quem merecia ouvir.
Palavras polidas, tão medidas para evitar estragos!
E agora ali, seu veredicto.
Pensou em deixar cartas.
Pensou em viver tudo em dois dias.
Pensou em pedir ajuda, dizer o que estava entalado.
Haveria outras vidas, talvez?
Haveria de se reconhecer no espelho?
Deixaria de pensar no depois?
Gostaria de ser mais amado?
Se ele morresse amanhã, era fato.
Faltava-lhe tantas coisas!
Sentia-se vivendo ao acaso.
O amanhã, será um fardo?
Não há mais nada a temer.
Perdera tempo com divagações tolas.
Palavras proferidas ao acaso.
Não há nada a perder.
Pedaço de trapo humano, presente é seu verbo.