sábado, 7 de maio de 2011

nove meses

Emprenhou-me há nove meses.
Uma criança no berço berra,
Mas não é esta que nasceu.
De repente era eu, pequenino,
Envenenado pelo leite da minha mãe –
um pagão.
Partilhava agora do pecado original.
Conheci os sabores amargos.
Berrava, porque não era visto.
Soluçava, embargava a voz.
Era só uma criança tola.
Precisava de vozes ao ouvido para dizer-lhe que era amado.
Crescido, sabia muito pouco.
Está tudo às claras, pensava.
Nada está oculto.
Havia medos secretos.
Nunca quisera fechar a porta.
Depois dos vales de olhos ou prédios – não mais se sabia
No ventre crescia o pecado.
Uma criança pura, careca e desdentada,
Berrando e gritando o amor de onde veio.

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